terça-feira, 2 de junho de 2009

Perfeita

Nunca mais tinha ido ali. Nunca mais tinha pensado desse jeito. Talvez eu nunca mais tenha feito nada porque nunca mais eu tinha visto tamanha perfeição. Eram, e ainda são em minha lembrança, perfeitos. Dois pares idênticos de deleite e ritmo. Nunca mais tinha visto esse subir e descer de forma tão sincopada. As últimas que me recordo eram secas e sem graça. Todas pareciam andar na mesma levada, não se diferenciavam. No máximo uma aparecia um pouco mais apertada em seu suporte. Alias, como parecem apertadas hoje em dia, essa não, era quase solta, somente um pedaço de pano que lhe caía desde as costas. Devia estar voltando da praia. Não interessa de onde estava vindo, o que importa é que estava indo e assim eu podia lhe admirar por alguns momentos. Que perfeição, a vontade que tive foi seguir, não só com o olhar, mas com uma câmera para registrar para todos esses momentos de deleite íntimo. Talvez eu até escrevesse alguma coisa para narrar as imagens. Começaria assim a narração: E o tempo parou. A única coisa que não parava era ela, perfeita, cadenciada, deslizante... seguiriam mais alguns adjetivos e por fim diria “e assim a perfeição passou por mim, sem deixar um rastro, um momento vazio, tudo foi preenchido por sua cadência”.
Um velho gaga, é assim que me chamariam se eu narrasse essa visão. Ninguém entende. Talvez essa fosse a visão que faltava para completar o meu destino. Uma vida toda que veio a se completar por causa de uma bunda. Mas como era simétrica. Eu nunca mais tinha ido ali. Alguma coisa hoj me fez despertar e ir sentar naquele ponto. Desde a hora em que eu cheguei, ainda não tinha entendido o porquê de voltar naquele lugar depois de tantos anos. Fiquei por ali, procurando sem saber bem o que. Quando aquela coisa passou por mim e o tempo parou, eu entendi. Era o meu último presente. A visão de uma bunda perfeita. Nem murcha, nem grande de mais. Não estava apertada, mas, não estava completamente a mostra. Quando eu estendi a mão para tentar tocar nela, não consegui. Era uma experiência sensorial tão grande que eu congelei. Mas valeu a pena. Aquela bunda era perfeita. Até essa palavra é perfeita, bun-da. Agente tem que encher a boca para falar, bun-da. A própria palavra já preenche tudo. E aquela bunda me preencheu. Nunca mais eu iria vê-la, mas, eu sabia que a minha vida valeu a pena por ter visto aquela bunda. Eu sabia que tinha me viciado. Foi por isso mesmo que tudo ficou claro quando ela virou a esquina. Do resto eu não sei, só consigo me lembrar daquela bun-da.

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